O batismo de Bolsonaro dentro de uma análise teológica

Ainda sobre o polêmico batismo do polêmico deputado Jair Bolsonaro no Rio Jordão e que publiquei aqui no blog em primeira mão na semana passada , segue-se as considerações do teólogo luterano Alexander Stahlhoefer sobre o evento e suas consequências tanto no âmbito político como no âmbito religioso. O que realmente levou o deputado e o pastor que oficiou o ato religioso a tomarem tal atitude? Houve uma conversão genuína?Está muito interessante o texto!

Jair Bolsonaro batizado no Rio Jordao.

Conversão religiosa é um fenômeno plenamente normal. Corresponde inclusive à um direito humano, o da liberdade religiosa. Nenhuma pessoa humana pode ser coagida por quaisquer meios a permanecer, abandonar sua confissão religiosa, assim como não pode ser obrigado a converter-se a uma outra religião. Sua consciência é a única juíza adequada para decidir sobre questões de fé e religião. Dito isto, pode parecer desnecessário uma tentativa de analisar o batismo do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ocorrido na última quarta-feira (11/05) no Rio Jordão em Israel. O ato religioso foi realizado pelo pastor Everaldo Dias Pereira, ministro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Ministério Madureira do Rio de Janeiro, presidente nacional do Partido Social Cristão e candidato à Presidência da República no pleito de 2014.

Entretanto, como o ato de Bolsonaro foi uma manifestação pública da fé cristã e um rito de entrada na comunhão de uma igreja cristã, é preciso olhar mais de perto quais as consequência e até possíveis razões do ato. A primeira questão que se coloca é a validade do ato em si. Embora o batismo cristão seja compreendido e praticado de diversas formas, há alguns pontos em que as diversas confissões cristãs concordam. O batismo deve ser realizado com água. As confissões divergem sobre o modo e a quantidade de água. Algumas afirmam a necessidade de submersão em um rio, mantendo-se fiel ao significado da palavra batismo na língua grega, isto é, o de mergulhar na água. Além disto o batismo deve ser precedido por uma confissão de fé pessoal por parte do batizando, ou por parte de pais e padrinhos nas igrejas que batizam crianças. Além disto o batismo deve ser feito em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Todos estes elementos estão presentes no batismo do Deputado Bolsonaro, o que nos leva a  reconhecer que o batismo dele é válido.

Porém, é preciso notar que um destes aspectos comuns na compreensão do batismo, é que ele marca a entrada na comunhão de uma igreja. Isto é, o batizado passa a ser considerado membro da igreja na qual ele foi batizado. Especialmente quando o candidato ao batismo é adulto, entende-se que se trata de um ato público de confissão de fé do batizando. É uma concordância com o ensino professado por aquela confissão religiosa. Por isto é um rito de entrada na igreja. Analisando por este viés, teríamos que entender o batismo de Bolsonaro como uma conversão à Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Entretanto a assessoria de imprensa do Deputado afirma que ele é (permanece) católico. Esta declaração nos causa estranheza. Quais razões teria uma pessoa para participar de um rito de iniciação em determinada igreja e por outro lado sustentar a pertença a uma outra denominação cristã? Se ao menos uma delas tivesse caráter sincrético ou aberto em sua compreensão de pertença e membresia, não haveria qualquer problema em uma membresia dupla, assim pensam algumas correntes do espiritismo kardecista, que não pede que seus adeptos deixem sua religião de origem, por exemplo. Como este não é o caso da Igreja Católica, muito menos o caso da Assembleia de Deus, teremos que aguardar posterior manifestação do próprio Deputado Bolsonaro sobre a sua suposta conversão religiosa.

Mas quero conjeturar um pouco mais. Supondo que ele mantenha a posição dada por sua assessoria, de que ele é e permanece católico, então ele terá um problema a resolver com esta instituição religiosa. Isto porque os cânones da Igreja Romana não concebem que um católico receba o batismo pela segunda vez. Na compreensão católica o batismo tem caráter indelével. Ele comunica uma graça especial ao batizando, graça esta que nenhuma pessoa pode “descomunicar”. Pela desnecessidade da repetição do ato do batismo defere-se também que uma repetição é compreendida como um “pouco caso” do batismo recebido anteriormente, e portanto um erro, um pecado. Caso a pessoa que rebatizada queira voltar à comunhão da Igreja Católica, terá que confessar que este rebatismo foi um erro do qual se arrepende e terá que confessar publicamente que errou e quer voltar à Igreja Romana. Portanto, caso o Deputado Jair Bolsonaro queira manter a sua posição de católico terá que se apresentar à uma paróquia católica, confessar-se perante um padre e em seguida confessar publicamente na Missa o seu erro. Acredito que politicamente isto não seja uma atitude interessante para um político que recentemente trocou de sigla, aderindo ao Partido Social Cristão, com clara intenção de tornar-se candidato à Presidência da República.

Importante notar que a própria viagem à Israel, onde o batismo se consumou, não é mero turismo religioso do deputado e seu “mentor espiritual”, muito antes, trata-se de uma agenda política do PSC. De acordo com o blog do Pr. Everaldo, presidente da sigla, diversos encontros com autoridades políticas israelenses foram estabelecidos, para inclusive reverter a decisão do governo Dilma de rejeitar a nomeação do diplomata Dani Dayan para a embaixada de Israel no Brasil, caso Bolsonaro seja eleito Presidente.

A aproximação do PSC com o governo de Israel, especialmente com políticos e religiosos israelenses que defendem uma visão mais ortodoxa e conservadora do judaísmo, se coaduna com compreensões teológicas típicas de grande parte do evangelicalismo brasileiro. Não seria, portanto, muito oportuno para Bolsonaro neste momento aliar à sua imagem de conservador um elemento religioso que o torne ainda mais aceitável à população evangélica brasileira? Não seria, além disto, muito astuto da parte do deputado “converter-se” fora de um templo pentecostal, em terreno neutro, e além disto insistir que permanece católico para manter-se palatável ao eleitorado católico conservador? Em breve saberemos o quanto o batismo de Bolsonaro foi realmente uma conversão religiosa e o quando foi tão somente uma estratégia política. Mal posso esperar pelos debates dos presidenciáveis!

Por Alexander Stahlhoefer , teólogo luterano.

Fonte : www.xadrezverbal.com

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