Ouvir música está se tornando raro.

Uma tendência que está levando o mundo moderno , digitalizado,  a consequências que podem ser irreversíveis e com sério prejuizos a saúde. Não se ouve música como antes! Ou melhor, não se curte música como se curtia há alguns anos.   Veja este excelente artigo do meu amigo Murilo Kardia, que além de um tremendo músico , com quem tive o privilégio de tocar e aprender , define muito bem o que está acontecendo neste mundo  contemporâneo.

muriloMurilo Kardia

“Vivemos num tempo em que tudo se impõe como acelerado. Há pressa, por mais que a tecnologia tenha avançado pra nos dar mais conforto, rapidez, facilidades, e assim nos proporcionar mais tempo. Mais tempo pra quê? Na teoria, seria para vivermos melhor, com mais qualidade, desfrutando a vida. Na prática, se tornou mais atividade e responsabilidade por dia. Atolados no caos, nas mil brechas que a tecnologia nos abriu no tempo, as pessoas perderam o hábito de sentar e ouvir música! Mas não foi só isso.

Semana passada morreu Glenn Frey, fundador dos Eagles, que tiveram em “Hotel California” seu maior sucesso. Um amigo de adolescência compartilhou o vídeo dela no Facebook, e disse que lembrava da primeira vez que a ouviu. Estava passando por um boteco e um rádio tocava a introdução. Ele parou, ficou ouvindo, pediu uma Coca, e disse ao atendente no final: “Chocante! Adorei essa música. Parei só pra ouvir”. De vez em quando eu me lembro de alguma obra de arte musical, e posto o vídeo no Face. Por mais que eu compartilhe, incentivando as pessoas a tirarem 3 a 4 minutos para ouvirem, falando que vale a pena, tentando mostrar que 4 minutos é um tempo pequeno para qualquer coisa que possa fazer bem, raramente chega a 5 curtidas, e geralmente é de gente acima de 40 anos que chegou a conhecer o que significava ouvir (dar atenção à) música.

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A música enlatada, fabricada pela mídia pra vender sem critérios de qualidade, criando sucessos artificiais, dominou o mercado. Temos de procurar onde podemos ouvir algo a ser “degustado”. A sensibilidade das pessoas vem caindo. É tanta massificação de lixo, que já encontrei quem ache estranho ouvir algo como “Undertow” do Genesis, “Brothers In Arms” do Dire Straits ou uma montanha de outras, cheias de elementos da alma. Não identificam a beleza. Os que identificam, certamente tem musicalidade nata. Isso é triste! Meu pai costuma dizer algo muito verdadeiro sobre os nossos dias: “o povo quer pular”. Não é à toa que o funk de baile e a techno são tão difundidos. Tem batidão? O povo dança. Dançando, tá bom pra galera. Com isso, os outros dois elementos que definem música além de ritmo – a harmonia e a melodia – podem ser paupérrimos. É bom lembrar que a dança existe por causa da música e não o contrário. Estão invertendo os valores, e parece que importa ter “um barulho pra que eu dance”.

Quando dou aulas de violão ou baixo, sempre tiro um tempo pra desenvolver a percepção musical do aluno. A dificuldade é maior nos mais jovens. As exceções ficam nos que têm pais que ouvem músicas de qualidade, com os três elementos ritmo/harmonia/melodia bem utilizados. Isso me deixa curioso sobre que tipo de música de massa teremos daqui a 20 anos ou 30 anos. Vai dar pra assobiar? Cantarolar? E sentar pra ouvir? Quando surgiu a Disco Music no final dos anos 70, eu lembro que se falava muito do excesso de batida, sirenes, que só servia pra dançar e era ruim. A gente pensava “não pode piorar”…mas piorou…rs. Quando ouço hoje alguns clássicos da Disco, vejo que havia qualidade. Quando chego a ouvir música eletrônica de alguns DJs, onde se tem uma massa de som alucinógena baseada em batida e mix de sons cibernéticos, as sirenes da Disco Music me parecem violinos!

Fico feliz quando vejo a meninada gostando de clássicos do rock, usando camisetas de bandas. Com certeza eles vão saber ouvir música no futuro, apesar de que farão parte de um grupo bem menor do que temos hoje. Infelizmente, se não rolar alguma revolução no comportamento, seguirá a tendência da massa consumir o que os americanos chamam de “Muzak”, com o eletrônico fazendo o papel de ditador das batidas.

Bem…VAMOS RESISTIR! Ensinemos as pessoas a ouvirem música, e torcer pra que os ventos mudem de direção. Ainda podemos ter esperança!”

By Murilo Kardia

Fonte: http://riorockebluesclub.com.br/

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